Acervo de recursos · leitura guiada

Quem não
entendeu quem?

Uma leitura guiada sobre o problema da dupla empatia,
de Damian Milton

Quando duas pessoas não conseguem se entender,
como decidimos em qual delas está o problema?

Uma iniciativa do Dr. Fábio Fonseca
Quem não entendeu quem?
Capítulo 1

Quando uma conversa dá errado

Duas pessoas saem da mesma conversa com versões diferentes do que aconteceu.

Isso acontece com frequência, em conversas grandes e pequenas.

Vamos começar por uma bem pequena.

Capítulo 2

Quando colocamos o problema dentro da pessoa

Uma pergunta que já foi respondida muitas vezes

No capítulo anterior, ninguém tinha decidido de quem era a dificuldade.

Existe um caso em que essa decisão foi tomada muitas vezes, ao longo de décadas, quase sempre na mesma direção.

Capítulo 3

Empatia precisa de duas pessoas

A pergunta incompleta

"Ela consegue compreender as outras pessoas?"

É uma pergunta sobre uma pessoa. Dá para respondê-la sem nunca olhar para a outra.

Capítulo 4

Duas experiências podem usar mapas diferentes

Uma simplificação tentadora

A essa altura aparece uma frase pronta: cada neurotipo fala uma língua.

É simples, é fácil de repetir, e não é o que está sendo dito.

Capítulo 5

E se colocarmos duas pessoas autistas juntas?

A pergunta que dá para investigar

Até aqui, uma ideia. A partir daqui, o que acontece quando alguém tenta observar isso.

A pergunta que dá para investigar é estreita, e é isso que a torna útil:

O que muda quando muda a composição do encontro?

Capítulo 6

O outro também precisa conseguir me ler

A direção que quase não foi olhada

No capítulo 2, uma pergunta ficou de fora: o quanto pessoas não autistas conseguem ler pessoas autistas.

Ela começou a ser feita há relativamente pouco tempo.

Capítulo 7

Dupla não quer dizer igual

O que "dupla" não significa

Dupla quer dizer que acontece nos dois sentidos.

Não quer dizer que aconteça na mesma medida, com o mesmo custo, ou com as mesmas consequências.

Capítulo 8

O que a dupla empatia não explica

Por que este capítulo existe

Até aqui, este guia apresentou uma ideia e mostrou pesquisas que conversam com ela.

Um guia honesto precisa fazer mais uma coisa: mostrar onde a ideia para.

Nenhuma das quatro partes seguintes é uma objeção que enfraquece o resto. Elas são o tamanho real do que foi proposto.

Capítulo 9

Quando não estamos nos entendendo

O que não vem aqui

Seria fácil terminar com uma lista de técnicas.

Não é isso que a leitura dos capítulos anteriores sustenta. Se o problema fosse de técnica, ele estaria de novo dentro de uma pessoa — só que agora dentro da outra.

Capítulo 1 · camada 2 · contexto

Por que a primeira explicação é sempre sobre alguém

A cena do "depois" é inventada. O padrão não é.

Quando alguém age de um jeito que nos incomoda, a explicação que vem primeiro costuma ser sobre quem essa pessoa é. Quando somos nós, a explicação que vem primeiro costuma ser sobre a situação em que estávamos. Essa assimetria é uma das observações mais antigas da psicologia social, e aparece na literatura sob nomes como erro fundamental de atribuição e viés ator–observador.

Vale uma ressalva que a própria área foi acumulando: o efeito é menos universal do que se pensou nas primeiras décadas, varia bastante entre contextos culturais, e não é uma lei do pensamento. Serve aqui como descrição de uma tendência comum, não como explicação de tudo.

O que interessa ao capítulo é mais simples que qualquer teoria: quando escrevemos as sete respostas possíveis, seis saíram naturalmente na forma "alguém fez" ou "alguém estava". Precisamos de esforço deliberado para escrever a sétima.

Capítulo 1 · camada 3 · profundidade

Por que o guia começa sem falar de autismo

Foi uma decisão editorial, e é reversível — então cabe explicá-la.

Se o capítulo 1 apresentasse a cena já dizendo que uma das pessoas é autista, praticamente toda leitura passaria a ser feita através disso. A pausa viraria sintoma. A insistência viraria traço. O leitor não estaria mais diante de duas pessoas com um mal-entendido: estaria diante de um caso.

Isso não é hipótese: é o que o capítulo 6 mostra acontecendo em condições controladas, com informação muito menor que um diagnóstico.

Começar sem autismo tem um custo. Quem chegou aqui procurando material sobre autismo passa um capítulo inteiro sem encontrá-lo. Achamos que o custo compensa, porque a pergunta do guia — quem decide onde está a dificuldade — precisa ser reconhecida como familiar antes de ser reconhecida como técnica.

Capítulo 2 · camada 2 · contexto

As explicações que vieram antes

Ao longo dos anos 1980 e 1990, a explicação dominante para as dificuldades sociais no autismo foi cognitiva e individual. A formulação mais influente propunha uma dificuldade específica para atribuir estados mentais a outras pessoas — representar o que alguém pensa, sabe ou acredita, sobretudo quando isso difere do que a própria pessoa sabe. Vieram daí as tarefas de crença falsa, e delas uma geração inteira de pesquisa.

Duas coisas precisam ser ditas juntas.

A primeira é que esse programa produziu achados reais e sustentou intervenções que ajudaram gente. Não é uma história de erro.

A segunda é que ele respondia a uma pergunta sobre uma pessoa. O desenho experimental típico colocava a pessoa autista diante de uma tarefa e media o desempenho dela. A outra parte da interação social — as pessoas não autistas — não estava sendo medida. Estava servindo de referência.

Foi contra esse arranjo que Milton escreveu, em 2012, o artigo que dá nome a este guia. O título fala em "estatuto ontológico" do autismo, e a expressão não é enfeite: a pergunta dele é que tipo de coisa o autismo está sendo tomado como sendo quando descrito assim.

Capítulo 2 · camada 3 · profundidade

De onde Milton escreve

Damian Milton é sociólogo e é autista. Escreveu o artigo de 2012 de dentro do objeto, e isso não é um detalhe biográfico: é parte do argumento.

A tradição de onde ele fala não é a psicologia cognitiva. É a sociologia da interação, que trata a compreensão mútua como algo produzido entre pessoas, dentro de contextos, e não como uma capacidade que cada indivíduo carrega e exibe. Nessa tradição, perguntar "quem tem a capacidade" já é uma escolha de recorte, não uma pergunta neutra.

Onde isso fica mais visível é num outro texto dele, também de 2016, que discute a opressão social de pessoas autistas a partir da obra da filósofa política Iris Marion Young — e trabalha ali noções como reciprocidade assimétrica e marginalização. É a peça que mostra de que conversa Milton está participando: não a de medir capacidades, mas a de descrever posições sociais.

Em 2016 ele publicou também uma versão dirigida a leitores não acadêmicos, na revista da associação britânica de autismo. Em 2022, com Emine Gurbuz e Beatriz López, escreveu um editorial de balanço: dez anos depois, o que aconteceu com a ideia. E em 2026 assinou, com outros seis autores, o texto que corrige as leituras que a ideia acumulou nesse caminho.

Nossa leitura

A sequência 2012 → 2016 → 2022 → 2026 é incomum. Uma ideia que precisa, catorze anos depois, de um artigo explicando o que ela não é, é uma ideia que circulou muito mais depressa do que foi examinada. O capítulo 8 existe por causa disso.

Capítulo 3 · camada 2 · contexto

O que o artigo de 2012 diz

O texto é curto, teórico, e propõe uma coisa só.

A dificuldade que aparece entre uma pessoa autista e uma não autista é descrita ali como uma ruptura de reciprocidade e mutualidade entre pessoas com disposições e experiências de vida diferentes — e não como falha de uma delas. Quem tem pouca experiência vivida de um certo modo de estar no mundo tem mais trabalho para prever, interpretar e responder a quem vive assim. Isso vale nas duas direções.

A palavra "dupla", no nome, é sobre isso: não sobre duas empatias, mas sobre duas direções.

A conversa de dez segundos da camada essencial é um exemplo mínimo desse arranjo. Uma fórmula de cortesia e uma pergunta ocuparam a mesma frase. Nenhuma das duas pessoas fez nada de errado com a língua.

Capítulo 3 · camada 3 · profundidade

Recíproco não quer dizer garantido

Aqui entra a correção mais importante que a ideia recebeu, e ela vem dos próprios autores que a defendem.

O artigo de 2026 é explícito: o problema da dupla empatia é uma explicação sociológica da interação — não uma teoria sociocognitiva do autismo. E é probabilístico: os mal-entendidos variam com o contexto e com o poder, não acontecem sempre nem acontecem igualmente.

Isso tem uma consequência que quase nunca é notada. Se a proposta é sociológica, avaliá-la exclusivamente com instrumentos desenhados para medir capacidades cognitivas individuais não é um teste rigoroso dela: é um teste de outra coisa. Os autores de 2026 dizem isso com todas as letras.

E tem outra consequência, na direção contrária, que eles também assumem: uma proposta que só pode ser avaliada nos seus próprios termos fica difícil de contestar. É exatamente essa tensão que o capítulo 8 mantém aberta.

Capítulo 4 · camada 2 · contexto

Por que não são duas línguas

A formulação "cada neurotipo fala uma língua" falha em dois pontos.

O primeiro é que pessoas autistas não formam um grupo homogêneo. As diferenças entre duas pessoas autistas podem ser maiores que a diferença média entre grupos. Um guia que trate "autista" como um conjunto de traços partilhados repete, com sinal trocado, o erro que está criticando.

O segundo é que o artigo de 2026 amplia deliberadamente o alcance da ideia: ela é apresentada como valendo para interações entre pessoas de disposições distintas, e não apenas entre os dois grupos que deram origem à formulação. Cultura, língua, idade, história de vida e posição institucional entram na mesma conta.

Um exemplo que costuma esclarecer: entre duas pessoas que trabalham há dez anos na mesma equipe, muita coisa não precisa ser dita. Entre alguém que chegou na semana passada e o resto da equipe, o mesmo silêncio significa outra coisa. Ninguém aí tem um déficit.

Capítulo 4 · camada 3 · profundidade

Comportamento, significado e quem acrescenta

A frase da camada essencial — o comportamento é visível, o significado precisa ser negociado — parece uma tese sobre linguagem. É também uma tese sobre responsabilidade.

Se o significado não vem colado ao comportamento, então alguém o acrescenta. E quem acrescenta faz isso com o repertório que tem: sua história, seu tempo, seu cansaço, suas expectativas sobre como as pessoas costumam agir.

Daí a tela que diz que nem todo significado serve. Reconhecer que a interpretação é acrescentada não a torna arbitrária — torna-a atribuível. Alguém a fez, num momento, com o que tinha. Isso é o oposto de "cada um tem a sua verdade": é dizer que interpretações têm autor, e que autores podem ser perguntados sobre o que fizeram.

O capítulo 7 mostra que nem todos os autores respondem nas mesmas condições.

Capítulo 5 · camada 2 · contexto

O estudo das cadeias, com números

Crompton, Ropar, Evans-Williams, Flynn e Fletcher-Watson, publicado na revista Autism em 2020.

Setenta e duas pessoas, organizadas em nove cadeias de oito participantes: três cadeias só com pessoas autistas, três só com pessoas não autistas, três alternando as duas coisas. A primeira pessoa de cada fila ouvia uma história e a contava para a seguinte, e assim por diante.

O que sobrou no fim de cada fila, em média — número de detalhes retidos:

A diferença entre autistas e não autistas não foi significativa. As cadeias mistas perderam significativamente mais que as duas outras.

Há um segundo estudo do mesmo grupo, publicado no mesmo ano na Frontiers in Psychology, sobre a qualidade percebida da interação. O título dele é a formulação mais exata da conclusão deste capítulo: o encaixe entre neurotipos, e não o fato de ser autista, é o que influenciou as avaliações de sintonia — tanto as feitas pelos próprios participantes quanto as feitas por observadores externos, que não sabiam quem era quem. Nesse segundo estudo, os pares autistas foram avaliados por observadores acima dos pares não autistas.

Capítulo 5 · camada 3 · profundidade

O que uma cadeia de difusão pode e não pode estabelecer

Uma cadeia de difusão é um instrumento antigo e bem compreendido. Ela mede uma coisa: quanto de um conteúdo sobrevive a passagens sucessivas.

É pouco, e é justamente por ser pouco que serve. Não depende de julgamento de avaliador, não depende de autorrelato, e o desfecho é contável.

O que ela não faz é medir compreensão mútua, e menos ainda empatia. A revisão metodológica de 2026 examinou vinte estudos empíricos usados como evidência da dupla empatia e concluiu que praticamente nenhum mede diretamente empatia cognitiva ou afetiva. Curiosamente, um dos dois que chegam perto é este mesmo estudo — não pela transmissão de informação, mas por uma única pergunta feita aos participantes sobre como se sentiram com as outras pessoas da fila.

Nossa leitura

Esse detalhe é desconfortável e vale dizê-lo. A evidência mais citada a favor da ideia mede, sobretudo, outra coisa. Isso não a torna inútil — torna-a uma evidência sobre encaixe em tarefas conjuntas, que é bastante, e não uma evidência sobre empatia, que seria outra afirmação.

Capítulo 6 · camada 2 · contexto

Os três estudos

Ler o estado mental. Sheppard, Pillai, Wong, Ropar e Mitchell, 2016. Observadores não autistas assistiam a vídeos de pessoas reagindo a quatro situações e tentavam inferir o que tinha acontecido. Acertaram mais com alvos não autistas do que com alvos autistas. Num estudo seguinte, os alvos autistas foram julgados igualmente expressivos em três das quatro situações. A conclusão dos autores é precisa: as pessoas autistas reagiram de modo diferente, não de modo menos expressivo.

Primeiras impressões. Sasson, Faso, Nugent, Lovell, Kennedy e Grossman, 2017. Avaliadores viam trechos muito curtos e diziam que impressão tinham. Não foram informados do diagnóstico de ninguém, e o autismo não era mencionado em nenhum ponto da tarefa. As impressões sobre participantes autistas foram menos favoráveis em todas as modalidades testadas — vídeo com som, só áudio, vídeo sem som, foto — com uma exceção: a transcrição do que foi dito. Lendo apenas as palavras, a diferença desaparecia.

Legibilidade e simpatia. Alkhaldi, Sheppard e Mitchell, 2019. O quanto um alvo era considerado fácil de ler correlacionou-se fortemente com o quanto era avaliado favoravelmente — e essa relação valeu independentemente do diagnóstico do alvo.

Capítulo 6 · camada 3 · profundidade

O que a exceção da transcrição significa

É o achado mais importante deste capítulo e o menos citado.

Se a impressão desfavorável sumia quando restava apenas o conteúdo verbal, então ela não estava sendo produzida pelo que as pessoas diziam. Estava sendo produzida pelo modo — ritmo, prosódia, expressão, gesto — e por como esse modo foi lido por quem observava.

Junte isso ao estudo de 2019: o que prevê a avaliação desfavorável é a dificuldade de leitura, não o rótulo. E ao de 2016: as reações estavam lá, com intensidade semelhante, e não foram decifradas.

Nossa leitura

Isso desloca a pergunta uma última vez. Não é "por que essa pessoa causa má impressão", e sim "o que, neste canal, entre estas pessoas, não está sendo lido". A primeira pergunta descreve alguém. A segunda descreve um encontro — e, ao contrário da primeira, sugere coisas que dá para mudar sem pedir que ninguém mude de jeito.

Uma coisa que este achado não autoriza: recomendar que pessoas autistas ajustem seu modo de aparecer para causar melhor impressão. Reduzir a distância é trabalho dos dois lados, e o lado que costuma ser convocado a mudar já é sempre o mesmo.

Capítulo 7 · camada 2 · contexto

Poder não é acréscimo, é parte

A leitura mais comum da dupla empatia é a simétrica: os dois se entendem mal, portanto empate. O artigo de 2026 fecha essa porta explicitamente, ao descrever o fenômeno como probabilístico e atravessado por contexto e poder.

A assimetria costuma aparecer em três lugares concretos.

O registro. Numa consulta, numa avaliação escolar, numa reunião de desempenho, uma das interpretações vira texto. Ela passa a existir depois que a conversa acabou, e é ela que outras pessoas vão ler.

A convocação para mudar. Quando duas pessoas não se entendem, geralmente só uma delas recebe orientação sobre como se comunicar melhor.

O custo de insistir. Voltar ao assunto tem preços diferentes conforme quem volta. Insistir com um colega e insistir com quem decide seu contrato não são a mesma ação.

Capítulo 7 · camada 3 · profundidade

Os três níveis fora do exemplo

A separação entre o que aconteceu, o que cada um entendeu e quem faz sua leitura valer não é uma invenção deste guia, e não é sobre autismo. É uma distinção velha na sociologia da interação: quem consegue impor sua definição da situação define, na prática, o que a situação foi.

O que o guia acrescenta é apenas a ordem em que as três perguntas são feitas.

Feitas nessa ordem, elas separam coisas que costumam vir grudadas. Sem essa separação, dois erros ficam disponíveis ao mesmo tempo: tratar uma interpretação como se fosse a descrição do fato, e tratar o fato como se fosse mais uma interpretação. O primeiro erro produz laudos; o segundo produz conversas em que nada pode ser estabelecido.

Nossa leitura

De todos os capítulos, este é o que mais serve fora do assunto do guia. Ele funciona igual numa escola, num consultório, numa reunião de trabalho e numa casa.

Capítulo 8 · camada 2 · contexto

As críticas, com nome

A cadeia de derivação. Livingston, Hargitai e Shah, na Psychological Review, em 2025. O argumento é metodológico e severo: a dupla empatia seria um exemplo de cadeia de derivação fraca. Entre o conceito, as previsões que se dizem derivadas dele e os experimentos que se dizem testes dele, há elos frouxos, e construtos diferentes são tratados como se fossem o mesmo. Recomendam cautela antes da aplicação clínica, até que a base conceitual seja refinada.

O que os estudos medem. Fellowes, no Journal of Autism and Developmental Disorders, em 2026. Avaliou vinte artigos empíricos quanto ao que medem, ao desenho da interação e à sua duração. Praticamente nenhum mede diretamente empatia cognitiva ou afetiva; segundo a análise dele, um estudo se aproxima de uma e um de outra. Muitas tarefas — montar torres, transmitir informação — não exigem, por si mesmas, tomar a perspectiva de ninguém, e muitas interações duraram cinco minutos ou menos.

A empatia medida em massa. Cusson, Meilleur, Bernhardt, Soulières e Mottron, na Clinical Psychology Review, em 2025. Duzentos e vinte e seis estudos. Diferença grande nas medidas de empatia cognitiva (g = −0,85) e maior ainda nas escalas que tratam empatia como dimensão única (g = −1,70). Diferença pequena na empatia afetiva (g = −0,17), que deixa de ser significativa quando a análise se restringe a estudos de alta qualidade. Dentro de um mesmo instrumento, subescalas apontam para lados opostos: menos "preocupação empática" (g = −0,59) e mais "desconforto pessoal" (g = 0,67) entre participantes autistas. Tarefas ecológicas e estudos de neuroimagem mostram diferenças mínimas.

A resposta. Kilgallon, Botha, Dwyer, Bottema-Beutel, Milton, Sasson e Crompton, na Autism in Adulthood, em 2026. Sustentam que há evidência crescente a favor de uma leitura probabilística da dupla empatia, e que as teorias deficitárias tradicionais têm problemas sérios de validade que raramente recebem o mesmo escrutínio.

Capítulo 8 · camada 3 · profundidade

A discordância é sobre que tipo de coisa isso é

Lidas lado a lado, as críticas e a resposta revelam uma discordância que é, em parte, sobre que tipo de objeto teórico está em discussão — e, por consequência, sobre o que contaria como um bom teste dele.

Livingston, Hargitai e Shah cobram o que se cobra de uma teoria psicológica: definições estáveis, previsões derivadas, testes que possam falhar. Pela régua deles, a dupla empatia tem uma corrente frouxa.

Kilgallon e colegas respondem que a régua é de outra coisa. A proposta, dizem, é sociológica e relacional, e julgá-la apenas com instrumentos sociocognitivos individuais é avaliar o que ela nunca se propôs a ser.

As duas posições são defensáveis, e é por isso que a disputa não fecha.

Nossa leitura

O desconforto está no fato de que cada lado tem o argumento mais forte no terreno do outro. Uma explicação sociológica não deveria ser cobrada por tarefas de laboratório; mas uma explicação que chega a recomendações práticas — sobre escola, sobre clínica, sobre trabalho — precisa poder ser contestada por alguém. Cautela não é neutralidade: enquanto se espera, o enquadramento anterior continua em vigor — e as limitações de validade e de evidência dele também precisam permanecer sob escrutínio.

Este guia não decide. Achamos que a honestidade aqui não é escolher um lado, é não deixar o leitor sair sem saber que existe a disputa.

Capítulo 9 · camada 2 · contexto

O que "tornar explícito" quer dizer

A terceira pergunta do capítulo é a única que produz alguma coisa, e ela pode soar vaga. Alguns exemplos do que costuma caber ali, sem virar roteiro:

Nenhum desses itens é um método, e nenhum deles é sobre autismo. São exemplos de reduzir a parte da comunicação que depende de ser adivinhada.

Capítulo 9 · camada 3 · profundidade

A pergunta clínica que fica

Uma das críticas mais sérias à dupla empatia é sobre aplicação: pede-se cautela antes de traduzir a ideia em orientação prática, porque a base conceitual ainda está em disputa.

É um pedido razoável, e este guia leva a sério — foi por isso que o capítulo 9 não virou uma lista de técnicas.

Nossa leitura

Há, ainda assim, uma assimetria que precisa ser dita. O enquadramento que a dupla empatia critica já está aplicado. Ele está em relatórios escolares, em pareceres, em orientações de comunicação dadas a uma pessoa e não à outra. "Esperar mais evidência antes de mudar" não é uma posição neutra: é manter em vigor uma prática que também nunca demonstrou o que se atribuía a ela.

O que nos parece defensável no meio dessas duas coisas é modesto, e é o que este capítulo faz: não prescrever técnicas, e ao mesmo tempo não continuar concluindo depressa de quem é a dificuldade. Isso não exige que a disputa esteja resolvida.

De onde vem isso?

Fontes deste guia

Este guia distingue três coisas, e a distinção está marcada visualmente em todas as camadas:

O que Milton propõe — o que está nos textos dele e dos colegas que assinam a revisão de 2026.
O que os estudos encontraram — resultados de pesquisas específicas, com o desenho que as produziu.
Nossa leitura — sínteses, ordenações e formulações deste guia, que não devem ser atribuídas a nenhum dos autores citados.

Quatro coisas são explicitamente nossas e não de Milton: a sequência dos nove capítulos; a distinção entre o que aconteceu, o que cada pessoa entendeu e quem faz sua leitura valer, na ordem em que a apresentamos; as três perguntas do capítulo 9; e a frase "localizar a dificuldade já é uma interpretação".

Por capítulo

1 · Quando uma conversa dá errado. Cena inventada. A tendência a explicar a conduta alheia por disposição e a própria por situação é descrita na psicologia social como erro fundamental de atribuição e viés ator–observador; o guia a menciona como tendência comum, não como lei, porque a própria literatura registra variação cultural e limites do efeito.
2 · Quando colocamos o problema dentro da pessoa. Milton 2012; Milton 2016, Your Autism Magazine; Milton, Gurbuz & López 2022. A caracterização da tradição sociológica de onde Milton escreve apoia-se em Milton 2016, Disability & Society. O panorama das explicações cognitivas anteriores é apresentado em termos gerais, sem atribuir a nenhum autor formulações que ele não tenha feito.
3 · Empatia precisa de duas pessoas. Milton 2012; Milton 2016; Kilgallon et al. 2026.
4 · Duas experiências podem usar mapas diferentes. Milton 2012; Kilgallon et al. 2026, para a ampliação a pessoas de disposições distintas. Exemplos do guia.
5 · E se colocarmos duas pessoas autistas juntas? Crompton et al. 2020 (Autism), cadeias de difusão; Crompton et al. 2020 (Frontiers in Psychology), sintonia percebida. A observação de que o estudo das cadeias figura entre os poucos que se aproximam de uma medida de empatia vem de Fellowes 2026.
6 · O outro também precisa conseguir me ler. Sheppard et al. 2016; Sasson et al. 2017; Alkhaldi et al. 2019.
7 · Dupla não quer dizer igual. Kilgallon et al. 2026, para contexto e poder; Milton 2016, Disability & Society, para o vocabulário de reciprocidade assimétrica e marginalização. Os três níveis e os exemplos institucionais são nossos.
8 · O que a dupla empatia não explica. Livingston, Hargitai & Shah 2025; Fellowes 2026; Cusson et al. 2025; Kilgallon et al. 2026; Milton, Gurbuz & López 2022.
9 · Quando não estamos nos entendendo. As três perguntas e os exemplos são nossos. A cautela quanto à aplicação prática vem de Livingston, Hargitai & Shah 2025.

Referências

Alkhaldi, R. S., Sheppard, E., & Mitchell, P. (2019). Is there a link between autistic people being perceived unfavorably and having a mind that is difficult to read? Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(10), 3973–3982. doi.org/10.1007/s10803-019-04101-1

Crompton, C. J., Ropar, D., Evans-Williams, C. V. M., Flynn, E. G., & Fletcher-Watson, S. (2020). Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective. Autism, 24(7), 1704–1712. doi.org/10.1177/1362361320919286

Crompton, C. J., Sharp, M., Axbey, H., Fletcher-Watson, S., Flynn, E. G., & Ropar, D. (2020). Neurotype-matching, but not being autistic, influences self and observer ratings of interpersonal rapport. Frontiers in Psychology, 11, 586171. doi.org/10.3389/fpsyg.2020.586171

Cusson, N., Meilleur, A., Bernhardt, B. C., Soulières, I., & Mottron, L. (2025). A systematic review and meta-analysis of empathy in autism: The influence of measures. Clinical Psychology Review, 120, 102623. doi.org/10.1016/j.cpr.2025.102623

Fellowes, S. (2026). Cognitive empathy, affective empathy and empirical research on the double empathy problem: A critical methodology review. Journal of Autism and Developmental Disorders. Publicação online antecipada. doi.org/10.1007/s10803-026-07315-2

Kilgallon, E., Botha, M., Dwyer, P., Bottema-Beutel, K., Milton, D., Sasson, N. J., & Crompton, C. J. (2026). What the double empathy problem is (and is not). Autism in Adulthood. Publicação online antecipada. doi.org/10.1177/25739581261456653

Livingston, L. A., Hargitai, L. D., & Shah, P. (2025). The double empathy problem: A derivation chain analysis and cautionary note. Psychological Review, 132(3), 744–757. doi.org/10.1037/rev0000468

Milton, D. E. M. (2012). On the ontological status of autism: The 'double empathy problem'. Disability & Society, 27(6), 883–887. doi.org/10.1080/09687599.2012.710008

Milton, D. (2016). The double empathy problem. Your Autism Magazine. National Autistic Society.

Milton, D. E. M. (2016). Disposable dispositions: Reflections upon the work of Iris Marion Young in relation to the social oppression of autistic people. Disability & Society, 31(10), 1403–1407. doi.org/10.1080/09687599.2016.1263468

Milton, D., Gurbuz, E., & López, B. (2022). The 'double empathy problem': Ten years on. Autism, 26(8), 1901–1903. doi.org/10.1177/13623613221129123

Sasson, N. J., Faso, D. J., Nugent, J., Lovell, S., Kennedy, D. P., & Grossman, R. B. (2017). Neurotypical peers are less willing to interact with those with autism based on thin slice judgments. Scientific Reports, 7, 40700. doi.org/10.1038/srep40700

Sheppard, E., Pillai, D., Wong, G. T.-L., Ropar, D., & Mitchell, P. (2016). How easy is it to read the minds of people with autism spectrum disorder? Journal of Autism and Developmental Disorders, 46(4), 1247–1254. doi.org/10.1007/s10803-015-2662-8

Escopo. Este material é educativo. Não é avaliação, não é diagnóstico e não substitui acompanhamento profissional.

Quando houver ameaça, coerção, violência, ou quando alguém estiver em sofrimento intenso, a pergunta deste guia não é a pergunta certa, e o caminho é procurar ajuda humana.

Uma iniciativa do Dr. Fábio Fonseca. Este guia não grava respostas: apenas o seu progresso de leitura fica salvo, somente neste aparelho, e pode ser apagado no mapa do guia.